domingo, 2 de fevereiro de 2014

Anjos de Augusto

Há na vida dois tipos de pessoas: as que querem morrer e as que querem viver. Pensava assim até conhecer Seu Augusto dos Anjos, um senhor com nome de poeta que carregava além da boêmia vida passada, uma dor inventada para poesias. Ele era os dois tipos num só.
Seus 55 quilos estavam estirados na cama, ossos sob a pele em um corpo de 82 anos já em fase terminal de câncer hepático com evolução para pulmonar. Era metástase. Irônico é pensar que a etimologia da palavra “metástasis” vem do grego “meta” (depois) e “stasis” (ação de estar), dando a ideia de “estar em outro lugar” ou transposição. E acrescento à ironia: não é da doença que estou falando.
Seus cabelos homogeneamente brancos ressaltavam sua idade avançada e davam-lhe um ar saudável de experiente. Sim, ele era vivido e experimentado. No fundo, não sei como funciona a ideia da experimentação, se somos nós que experimentamos da vida ou ela a nós. Mas se a ordem dos fatores não altera realmente o produto, tem-se que ele era experiente. E não era o tipo de experiente completamente satisfeito.
Contrapondo-se às dores que o tomavam, ele era sereno e gentil. Não me deixava sair de sua casa, pequena e impecavelmente limpa, sem tomar um copo de suco (ele sabia que eu não gostava de café). Morava com um de seus seis filhos, uma que cuidava muito bem dele. Sua esposa, já falecida, mantinha-se viva em sua memória. 
Era entre exercícios e conversas que nos conhecíamos. Alguns exercícios roubados, diga-se de passagem. Eu pedia 10 respiratórios e ele me dava 7 com um sorriso de canto de lábios, uma safadeza. Mas não me irritava, eu sabia que ele estava dando o máximo de si.
Foi numa manhã de rotina de exercícios que senti um nó de angústia rasgando minha garganta. Não há nos livros técnicas que descrevam como dialogar com um paciente à beira da morte e, foi assim, sem técnicas ou métodos que o ouvi dizer que não queria ser “ressuscitado” caso sofresse uma parada naquela manhã. Ele falava com muita dificuldade. Tentava se comunicar, mas tanto a respiração quanto o coração já não estavam mais adestrados pela vida. Eles queriam um descanso assim como Seu Augusto.
– Seu Augusto, apesar de querer respeitar a vontade do senhor, eu não poderia fazer isso, porque estaria negligenciando a vida – respondi com carinho, entendendo-o.
– Minha filha – disse ele, atravessado pela falta de ar e olhando dentro dos meus olhos – quem negligenciou a vida fui eu – outra pausa para respirar – só agora enxergo tudo claramente.
Doeu-me escutá-lo daquela forma. Tenho a sensação de que, no final da vida, tudo que fizemos soará arrependimento. O ser humano é e sempre será um inconformado. Então, não importa quanto acertamos, são nossos erros que nos tornarão memoráveis. E assim era para ele.
Conversamos bastante naquela manhã. Na verdade, em todos os dias de atendimento, era uma ofensa sair de sua casa sem termos uns 10 minutinhos de prosa. Mas, naquela manhã em especial, eu o ouvi contar as histórias de sua juventude. Ele as contava num ar nostálgico que me envolvia e eu me entregava à todas elas como se me pertencessem.
Foi também naquela manhã que o ouvi dizer a sua maior negligência (se é assim que posso chamar todas as escolhas que deixamos de fazer).
– Eu queria mais uns dias de vida – disse puxando ar de dentro de si – os que eu vivi não foram suficientes.
Eu permaneci em pé ao seu lado, segurando sua mão. Ele era lindo. Tinha uns traços doces.
– Eu queria – uma respiração faltou – a chance de dançar, no meio da rua, com uma garota que há 50 anos me fez o convite.
Seus olhos esmaeceram, encheram-se de lágrimas. Se chorasse, não seria a primeira vez que o fazia. E, com certeza, eu o acompanharia nesta enxurrada de emoções. O fim da vida provoca emoções desconhecidas.
Em mais de 82 anos que viveu, ele cometeu muitos erros. Claro que tiveram acertos. Mas, chamou a minha atenção que o foco dele não foi as grandes realizações. Foi uma recusa de ato delicado de dançar no meio da rua que o levou ao arrependimento. Ele recusou uma poesia em vida. Um momento que poderia ter sido eternizado se ele tivesse concedido permissão ao seu corpo para viver.
E eis então que surgem as dúvidas, os porquês dele não ter se permitido. As convenções? A timidez? A sociedade? As obrigações? Naquele momento, não foi a origem da sua ação que o fez se arrepender. Foi a conclusão. Para mim, naquela hora, e talvez seja assim no momento da morte, ele se libertou de todas as suas crenças e das convicções sociais. Libertou-se das imposições que a vida traz como obrigações e responsabilidades e pensou que era possível. Pensou que tudo que o limitou a viver aquela dança era pequeno demais diante da possibilidade de não poder vivê-la novamente.
Eu saí da casa dele naquela manhã, envolvida por uma sensação de diferença. Quantas vezes somos indiferentes ao que temos na vida porque não temos a sensação de perda? Saí com a certeza de que não esperaria meu último dia de vida para projetar-me numa dança que não fui capaz de dançar. Decidi, naquela manhã, que me entregaria aos detalhes e às loucuras se eles significassem um aprisionamento existencial. Não me permitiria ser presa em minha própria liberdade.
Durante a madrugada, Augusto dos Anjos, o pseudo-poeta, faleceu. Ao saber da notícia, sussurrei uma despedida como ele sempre fazia comigo em meio a um sorriso doce:
– Vá com Deus, que o Senhor o acompanhe e todos os anjos de Augusto!

Um comentário:

  1. Tava com saudade de seus textos.Quantas experiências eim menina.Xêro de Deus prôc!

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